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Revista on
line --Edição n. 1 - Julho/Setembro de 2003-- |
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Esqueléticos esquizofrênicos esquivavam-se dos esquilos esquisitos Jean
Jacques Erenberg "Esqueléticos esquizofrênicos esquivavam-se dos esquilos esquisitos". Com essa frase na cabeça, começou a escrever. Como assim? – perguntou o leitor, por cima de seu ombro direito. Fingindo não existir leitor algum espiando sobre seu ombro (ou será que não existia mesmo?), repetiu em voz alta: "Esqueléticos esquizofrênicos esquivavam-se dos esquilos esquisitos", enquanto ia escrevendo a frase, catando milho no teclado. Não se lembrava muito das últimas semanas. Às vezes surgiam em sua mente (ou DE sua mente) fragmentos de acontecimentos, idéias, conceitos, imagens, odores, sensações. Uma cena lhe surgiu assim, do nada: espectros vagavam por um corredor gélido, arrastando atrás de si correntes enormes e pesadas. Seu andar era penoso e seus gemidos faziam com que os pelos das costas ficassem eretos, transmitindo uma sensação de frio na espinha. Suscitava medo olhar para eles, mas eles insistiam em aproximar bem a face do observador e, quando já era inevitável olha-los, eles escancaravam a boca em súplica e seu hálito fétido e congelante parecia entorpecer os sentidos. Por certo que se devia ajudá-los, mas sua imagem despertava tamanha angústia que só se conseguia afasta-los com um empurrão e passar a ignorar o seu choro. Mas sempre vinham outros e mais outros. Às vezes se podia amassa-los como papel, mas isso só fazia com que seu pranto se tornasse gritos ensurdecedores, lancinantes. Quando muitos deles se reuniam, sua repulsa por sua própria condição os fazia engolirem-se uns aos outros, enquanto chacoalhavam portas trancadas, gritando por liberdade. Um dia ele percebeu no olhar dos espectros o mesmo medo, o mesmo ódio, o mesmo asco, quando olhavam para ele. E então, horrorizado, se deu conta: era um deles também! Abanou violentamente a cabeça, como se assim esses pensamentos fossem expelidos pelos ouvidos, submissos à força centrífuga. Funcionou. Olhou para o teclado, onde seus dedos dançavam tal qual ébrios catando pontas de cigarros dentre os dormentes da linha do trem, e percebeu que estava úmido. Deu-se conta de que havia chorado. Por quê? Por quem? Lembrou-se, então, de que não se lembrava de ter sido retirado da camisa-de-força e da cela-forte acolchoada. Estaria lá, ainda? Mas então, toda aquela vida, todas aquelas pessoas que haviam despertado sentimentos nobres e vis, todo o estudo, o trabalho, o empenho, tudo aquilo não passava de uma alucinação? Então não havia se casado, gerado filhos, escrito obras, recebido honrarias? Era lá, dentro de sua mente, o único lugar onde essas coisas aconteciam? Tentou mover os braços. Nada! Tentou clamar por Deus, sua mandíbula se recusava a separar-se da face. A língua, inchada, lhe preenchia toda a cavidade bucal e seu grito não passou de um balbucio: ‘ehu ‘Euhz! Buscou com todas as forças explodir, atraindo para o peito todas as energias que lhe restavam. Começou a inchar, por vontade própria, até que não coube mais dentro de si e, como pipoca, virou-se inteiramente do avesso. Agora seus olhos só viam a escuridão. A massa encefálica que lhe obstruía a repiração cheirava a queijo de soja. Isso: cheirava a tofú. Resolveu parar de viver e a cada batida de seu coração, atrasava a seguinte um pouco mais. Logo, o coração batia só uma vez por dia e ele sentia paz. Despertou de cabeça para baixo, nas mãos do médico obstetra. A mãe logo o aninhou junto ao peito e ele não se lembrava mais de nada.
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