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Revista on
line --Edição n. 1 - Julho/Setembro de 2003-- |
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Margem Esquerda Marcelo
Ridenti Parece incrível: até mesmo amplos segmentos de simpatizantes, militantes, governantes – e tanta gente que se identifica como de esquerda – têm sido influenciados pelas idéias e práticas hoje hegemônicas, chamadas de "neoliberais", que apostam na consolidação de uma ordem social global baseada nos mercados livres. Mas não é incrível: uma hegemonia só merece esse nome se for capaz de dar o eixo ao pensamento e à ação não só de seus adeptos, mas principalmente daqueles que se dizem seus adversários. Daí a necessidade urgente de construir uma hegemonia alternativa, exercitando a capacidade de criar e revigorar, inventar e reinventar valores e ações que se contraponham ao senso-comum conformista com a ordem social, política e econômica estabelecida tanto no plano nacional como internacional. Vale dizer, é preciso compreender para transformar um mundo no qual se impõe a cada um de nós a interiorização de valores, práticas e expectativas ditadas pelo capital e seus ideólogos. Eles apresentam a ordem da mundialização do capital como natural e inevitável, cabendo aos indivíduos, grupos, classes e nações adaptar-se a ela, de um modo ou de outro. Os brados das ruas em todas as partes do globo têm dado a eles uma resposta contundente: "um outro mundo é possível". Mas estará mais longe se o pensamento social dito de esquerda sucumbir ao amálgama de consentimento e coerção que constitui a hegemonia burguesa. Realizar uma reflexão teórica comprometida com uma hegemonia alternativa é tarefa a que se propõe a recém lançada revista semestral Margem Esquerda. Ela surge para produzir e divulgar o melhor do pensamento crítico independente elaborado no Brasil e no exterior, oferecendo elementos de conhecimento e de crítica das formas de domínio do capital. A atual conjuntura torna ainda mais oportuna uma revista como Margem Esquerda. No cenário nacional, temos pela primeira vez na história um governo de esquerda, eleito para mudar os rumos do país, mas que dá mostras de ter sucumbindo à corrente hegemônica de pensamento e ação social. No plano externo, o império norte-americano exibe todo seu poderio bélico, despotismo e arrogância ao invadir o Iraque. Daí a presença neste primeiro número da Margem Esquerda de um dossiê sobre a "guerra" (com artigos de Chesnais, Wallerstein, Beinstein e Ricardo Antunes), e de outro sobre as "perspectivas do governo Lula" – para o qual escrevem Francisco de Oliveira, Michael Löwy, Jacob Gorender, José Luís Fiori, Wolfgang Leo Maar, Luiz Antonio Guimarães e Ricardo Musse. Não se trata de propor nenhuma receita teórica para os agentes sociais, afinal é mais que sabido que a emancipação das classes trabalhadoras será obra de sua própria ação política. Mas isso não dispensa a reflexão teórica que deve acompanhar as lutas dos trabalhadores e despossuídos. Eles nada ganharão se permanecerem submetidos às maneiras de ser, pensar e agir difundidos pelas classes dominantes. Para abordar essa questão, Margem Esquerda publica uma reflexão instigante de Perry Anderson sobre a relação entre idéias, ação política e mudança histórica. Vale citar sua conclusão, por estar em perfeita sintonia com os propósitos da revista: "Resistência e dissidência não estão mortas, mas falta-lhes ainda uma articulação sistemática e intransigente. Como sugere a experiência, pequeno vai ser o resultado de ajuste frágil ou acomodação eufemística à ordem existente que ainda compõe a maior parte do que se passa pela cultura ‘atualizada’ da esquerda. Pelo contrário, o que é necessário, e não será conquistado da noite para o dia, é um espírito completamente diferente – uma análise cáustica, irredutível, e até brutal do mundo tal como é, sem concessão às alegações arrogantes da direita, aos mitos conformistas do centro ou mesmo às tolices bem-pensantes de grande parte da esquerda. Idéias que não sejam capazes de chocar o mundo não serão capazes de sacudi-lo" (p.92). Margem Esquerda surge com a clareza de que está em curso uma luta (também) de idéias: as esquerdas estarão de antemão derrotadas se abdicarem do pensamento crítico que aposta na organização social "para além do capital", na expressão feliz do artigo publicado de István Mészáros. Uma revista de reflexão crítica tampouco poderia deixar de lado o aprofundamento das questões teóricas que a tradição marxista acumulou. Daí a presença do artigo de Jesus Ranieri sobre questões de método e teleologia em Hegel. Na mesma direção, há o compromisso de publicar textos clássicos inéditos em português ou pouco difundidos. Neste número, um extrato do ensaio de Marx "acerca de Estatismo e anarquia de Bakunin". Por fim, publicações recentes e importantes são analisadas na seção de "resenhas". Em suma, neste momento histórico crucial, Margem Esquerda vem propor sua contribuição teórica – que comporta análises diferenciadas não só dentro do campo marxista, mas também anticapitalista e antiimperialista –, colaborando para repor o trabalho crítico e desmistificador da realidade social capitalista. Ajudará a remar contra a corrente, incentivando a entrar nesse barco todos que têm um outro mundo a ganhar.
P.S.: A Revista Margem Esquerda é publicada pela editora Boitempo, de São Paulo. Contato: margemesquerda@boitempo.com
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