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Revista on
line --Edição n. 1 - Julho/Setembro de 2003-- |
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O doutor, o mestre e o velho advogado Luís
Carlos de Paula e Sousa Eram advogados de uma grande empresa e constituíam seu departamento jurídico. O doutor, com formação irretocável, imaginava-se com o olhar dos sábios e chefiava o serviço. Altivo e alepidoto , preocupava-se mais em gozar o prestígio do título. O mestre, sub-chefe, andava às voltas com as teorias jurídicas e esbaldava-se na troca de conhecimentos com o "Boss", em estribilhos alcançados nas leituras de véspera, uma espécie de distúrbio Lombrosiano que acomete aqueles que pensam saber mais. O advogado, velho e cansado, fazia as honras da casa, tipo mata-borrão, organizando agendas, redigindo petições, pesquisando jurisprudências, carregando pilhas de processos e se fazendo presente às audiências. Seu metier era o de advogado. A empresa teve contra sí ajuizada uma ação trabalhista, cujo valor elevado logo chamou a atenção do jurídico. Os chefes, então, trataram de organizar a matéria de defesa. O velho advogado não fora convocado à reunião. Não havia necessidade, a questão extrapolava assuntos domésticos e impunha-se identificar qual tese seria esposada. Assunto apropriado aos doutos, definitivamente. Defesa feita, laudas e laudas de teorias, que iam desde as exceções até o factum principis, tornando a defesa verdadeiro compêndio abstrato de direito. A peça defensiva vinha assinada pelos superiores- o doutor e o mestre- em papel que trazia, além do timbre, resumido curriculum de ambos. Choses da vaidade. No dia do ato lá estavam as partes: A ré, a empresa, se fazia representar por seu diretor, acompanhado pela indefectibilidade de seus inconhos procuradores. Era vitória na certa. O velho advogado, como de sempre, apenas observava o movimento, portando o instrumental da defesa que estava por acontecer. Embora estivesse no meio de esturjões, seu olhar era de águia. Conhecia, pois, o advogado, o assunto em pauta, embora não tivesse sido convocado a manifestar-se. Em audiência, o magistrado verificou que a defesa não seria capaz de contrariar a matéria da ação, injungindo-se contra a mesma. Água na fervura. Olhares perdidos, rostos ruborizados, aprosexia geral, afinal de contas, estavam lá a creme de la creme , doutor e mestre, o melhor que a empresa poderia dispor para a defesa de seus interesses. Naquele momento a soberba e a jactância deram lugar ao pânico. O que fazer? A derrota significaria caminho para inúmeras outras ações semelhantes. O diretor da empresa estava em estado de pré-enfarto. Sua garganta não emitia sons, apenas grunhidos e a comunicação naquele momento apenas se fazia possível pelo espanto dos olhos esbugalhados. Um verdadeiro horror. Isso instalado, diante daquela cena fúnebre, onde palavras, pensamentos e ações pareciam fluidificar-se, o velho causídico, aquele mesmo que carrega o estigma de ser apenas um advogado, levantou a mão, pediu pela ordem e diante dos olhares vesgos de seus pares, dirigindo-se ao juiz disse o seguinte:
Todos se espantaram e entreolharam-se, como a esperar o pior daquela figura franzina, de terno Manuelino e voz desmodulada.
A sentença reconheceu a prescrição. Depois dessa, a empresa, em justo reconhecimento, resolveu promover o velho advogado a um cargo de chefia, acima dos de seus colegas, que ficaram sob suas ordens. Prevaleceu o bom senso, a experiência, a humildade, o conhecimento profundo das minúcias processuais e o total despojamento às causas da vaidade, que , infelizmente, grassam no seio da classe. Como prêmio ao velho advogado, a empresa concedeu-lhe férias, depois de longo anos sem usufruí-las, pela Europa, com todas as despesas pagas, homenagem mais do que justa a quem soube honrar a profissão, alicerçado nos ensinamentos de Ulpiano. De lá, de seu dolce far niente, manda-nos um até breve.
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