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Revista on
line --Edição n. 1 - Julho/Setembro de 2003-- |
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Guerra no Iraque e manipulação da informação Luiz
Prado O controle da informação é tido como incompatível com a democracia e com o "império da lei". Pois o que vimos desde os primeiros passos para a invasão do Iraque em busca das reservas de petróleo foi o mais absoluto controle dos meios de comunicação dos EUA. Corrupção financeira ou oportunismo – o fato é que a sonegação de informação teve ares de censura e contaminou boa parte da imprensa internacional. Nesse quadro, a voz ou mesmo o mais leve tom dissonante foi encarado como "anti" – anti-americano, anti-patriota, anti-democrático. Nada diferente do que a ditadura militar praticou no Brasil com campanhas do tipo "ame-o ou deixe-o". Mas em escala muito maior e justamente no coração da nação que se pretendia ser um modelo de democracia. À maioria, as batatas! A brincadeira termina sem Saddam, sem guarda republicana, sem armas químicas, mas com a sensação de que a invasão foi justa e indolor. O termo para as baixas entre os civis – "casualties" – assume ares de "casualidades". A capacidade norte-americana de fazer lavagens cerebrais de grande porte já era uma velha conhecida. Depois de expulsos pelos vietnamitas, os norte-americanos iniciaram um bem sucedido trabalho de convencimento da população mais jovem de que não ocorreu uma derrota, mas de que as forças militares norte-americanas foram retiradas porque o custo de levar à democracia aos vietnamitas não se justificava. Mas essa lavagem cerebral se deu lentamente, discretamente, ao passo que a do Iraque foi rápida, e "em tempo real". O bisturi da censura atuou com tal precisão que todos ficaram com a sensação de "dever cumprido" – a máquina de propaganda nazista pode ser vista como uma brinquedo diante do que pudemos testemunhar. Os exageros foram de tal ordem que um grande jornal chegou a dar o título de "a guerra de Saddam" a uma notícia sobre a recessão nas atividades de turismo e de entretenimento. Para surpresa de muitos, no chamado "mundo ocidental", quem melhor informou foi a televisão portuguesa. No Brasil, O Globo, optou por um título diário um tanto dúbio para as páginas contendo informações sobre a invasão: "a guerra de Bush". Aqui e ali, um texto assinado introduzia alguma crítica. No Valor Econômico, um artigo intitulado "a guerra do silêncio imposto" ganhou uma pequeno sub-título – "yes, eles têm censura" -, um tanto á revelia dos arabescos intelectuais do próprio autor do texto. Agora, será iniciada um nova fase de censura, de distorção, de sonegação dos fatos. Não haverá contagem de mortos, não há indícios de que serão transmitidas imagens dos campos de petróleo e, menos ainda, da "conta" que será enviada ao novo "governo" do Iraque pelas despesas com a invasão e com a reconstrução. A vida segue assim: rouba-se as reservas de petróleo e envia-se a conta do roubo. Essa abordagem do problema é descritiva, semelhante a enumerar os fatos que marcaram o maciço apoio dos brasileiros a Fernando Collor, por exemplo. Manipulação da opinião pública não é uma novidade em regimes autoritários ou democráticos. Há, no entanto, uma outra abordagem que pode ser atordoante, senão aterrorizante. Nessa, os norte-americanos agiram de forma legítima – ainda que a legalidade dessas ações, mesmo à luz de suas próprias leis, seja questionável. Legítima porque o povo percebeu que havia, ali, uma importante válvula de escape para os escândalos das fraudes nos balanços das grandes empresas que aniquilaram a poupança de milhões de aposentados. Ou legítima porque todos sabiam que essa era uma "guerra pelo petróleo", num mundo em que em pouco tempo terá que se defrontar com a escassez desse combustível. E aterrorizante porque mostra que seja qual for a fantasia de que o ser humano "civilizado", a "mais avançada democracia" do mundo é capaz de agir como um bando de primatas lutando pelo espaço territorial (espaço que envolve recursos vitais para a sobrevivência). Nada muito diferente do que ocorreu ao longo da história da humanidade, em todos os recantos do mundo. Afinal, o que fizeram os espanhóis com os maias – de acordo com a narrativa de Frei Bartolomé de las Casas – senão praticar um genocídio em busca do ouro e da prata? Aceita essa hipótese, um "detalhe" ainda atordoaria os brasileiros: porque razão os norte-americanos são capazes de manter um elevado nível de organização social interna, um "estado de direito" que só desconsidera os mais elementares princípios do direito quando se trata de manter prisioneiros e assassinar cidadãos de outras nacionalidades, fora de seu território, enquanto nós, brasileiros, fazemos exatamente o mesmo com os nossos próprios concidadãos... e sem a necessidade de uniformes militares? Eles são predadores de outros povos, nós... do próprio Brasil e dos brasileiros. Eles conquistam a unanimidade quando se trata de lutar por seus direito sociais ou de impor derrotas aos outros, nós só conquistamos a unanimidade no futebol.
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