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Revista on
line --Edição n. 1 - Julho/Setembro de 2003-- |
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Outras Guerras Gabriel
Mazzarovich e Letícia Massula "A paz não pode ser construída sobre uma base de esquecimento e silêncio" (Marielos Monzón em artigo publicado em sua coluna semanal no Jornal Prensa Libre)
Passados 36 anos de regime autoritário com um saldo de 250 mil mortos e 50 mil desaparecidos, entre eles 5 mil crianças, episódio qualificado pela Comissão de Esclarecimento Histórico, criada sob o auspício da ONU no marco dos acordos de paz, como genocídio, a Guatemala vivencia hoje, em período pós abertura democrática, episódios que remetem à práticas comuns àquele período. No ano passado estima-se que aconteceram no país pelo menos 112 agressões e invasões a escritórios de organizações de defesa dos direitos humanos. Dois ativistas foram assassinados, um da Fundação Rigoberta Menchú e um líder da comunidade maya, Antonio Pop Caal, encontrado decapitado em um fosso. Inúmeros outros militantes, jornalistas e até juízes estão sendo sistematicamente ameaçados por seu trabalho de esclarecimento e denúncia das atrocidades cometidas no período ditatorial. Segundo analistas e ativistas de direitos humanos, as ameaças e intimidações partiriam de grupos de poder das forças armadas e do poder econômico (em especial, um grupo de 50 famílias que controlam a totalidade dos negócios do país), para desestabilizar e influenciar o processo eleitoral que se aproxima, onde o ex-ditador Efrain Rios Mott, atualmente presidente do Senado e acusado pessoalmente de arrasar 600 aldeias e comunidades indígenas, pretende ser o candidato à presidência pelo FRG (Frente de Reconstrução da Guatemala, partido do governo), apesar da vedação constitucional à sua candidatura apontada por diversos magistrados. Dentre todas estas graves violações queremos denunciar o pesadelo vivenciado desde o ano passado por Marielos Monzón, jornalista guatemalteca e ativista de direitos humanos, que vem sofrendo inúmeras ameaças por seu trabalho de denúncia em face de grupos clandestinos repressivos que atuam no seio das forças armadas e que continuam o trabalho dos esquadrões da morte, como o tristemente célebre "Mão Branca" que atuou nas décadas de 60 e 70 no país, responsável pela morte e desaparecimento de milhares de pessoas. Foi a primeira jornalista a fazer denúncias desta natureza e desde então é a que mais tem denunciado a ação destes grupos, cuja existência é reconhecida pelo próprio presidente de Guatemala, Alfonso Portillo, que confessa estar impotente ante suas ações. Marielos tem 32 anos, dois filhos e profundas marcas da "guerra" em que seu país está submerso. Em 1981, seu pai, o advogado Guillermo Monzón, foi assassinado a tiros em plena rua por sua ação de defesa de dissidentes do regime ditatorial. As ameaças a ela iniciaram-se em junho de 2002, ocasião em que teve seu nome publicado em uma lista com outros 11 ativistas de direitos humanos e jornalistas que estavam ameaçados de morte. Em tal ocasião, denunciou tais fatos perante a Missão de Verificação da ONU na Guatemala e ao Relator Especial para Liberdade de Expressão da OEA. Em setembro o programa de rádio que Marielos comandava, um dos mais ouvidos da Guatemala, foi suspenso do ar em clara atitude de censura por parte das oligarquias locais responsáveis pela quase totalidade da verba publicitária do programa. A situação vem se agravando dia após dia, em outubro pudemos estar juntos, os três, aqui no Brasil, ela em "férias forçadas" fora de seu país, esperando que sua ausência abrandasse um pouco a situação. Neste período, teve que se distanciar dos filhos pequenos que partiram com o pai para a Europa como medida para garantir sua segurança. Nos últimos dias invadiram duas vezes sua casa, arrombaram seu carro e agora passaram a ameaçar diretamente seus filhos. A gravidade da situação motivou a Anistia Internacional e a ONG Repórteres Sem Fronteiras a proporem uma Ação Urgente, exigindo que o governo da Guatemala garanta a segurança de Marielos Monzón e sua família. No mesmo sentido pronunciou-se a Comissão Interamericana de Direitos Humanos no âmbito da Organização dos Estados Americanos. Denunciar a situação vivenciada
pela amiga Marielos Monzón e seus companheiros ameaçados na Guatemala,
promovendo a criação de uma cadeia internacional de solidariedade para
proteger suas vidas, talvez seja nossa única opção para influenciar
nesta difícil realidade. A ampla divulgação de violações aos
direitos fundamentais como esta reveste-se de especial importância em
países como os nossos, onde situações similares foram cotidianas nas
ditaduras que vivemos no passado. Lamentavelmente na Guatemala seguem
fazendo parte do presente.
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