Nacionalismo, Xenofobia e Proteção das Florestas Tropicais

 

Guilherme José Purvin de Figueiredo

Professor de Direito Ambiental (Fac.Saúde Pública USP - Direito USF)

Procurador do Estado de São Paulo - Presidente do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública

 


No início do mês de junho deste ano de 2000, os debates se centravam em torno de uma falsa notícia apócrifa veiculada na Internet, segundo a qual as escolas norte-americanas estariam usando mapas com o Brasil dividido ao meio e a AmazôniaLegal definida como "área de controle internacional". O preocupante boato chegou até mesmo a dominar um encontro de militares de alta patente, segundo nos informava o jornal "O Estado de São Paulo" de 13/6/2000.

Surpreendentemente, tal boato encontrou ressonância até mesmo na voz de juristas cuja idoneidade moral e espírito cívico e democrático jamais foram contestados. Pronunciamentos xenófobos por parte de aguerridos militantes da causa ambientalista chegavam até mesmo a sugerir que a Amazônia poderia se transformar num palco de guerra ao estilo da do Vietnã. E, o que era pior, tais discuros chegavam a empolgar muitos colegas que, aparentemente, não percebiam que nada há de mais anti-ambiental do que uma guerra, já que guerra é a negação da vida.

Desde o primeiro momento alertamos que a denúncia sobre o tal mapa baseava-se em mensagens apócrifas via email e pedimos a todos que atentassem para nossos verdadeiros adversários: a quem interessa relacionar patriotismo com direito de devastar a Amazônia? Ou "imperialismo yankee" com preocupação mundial pela preservação dos recursos planetários?

É evidente que o episódio do falso mapa norte-americano interessava em muito, naquele momento, à bancada ruralista. Era o ingrediente preciso para que todos se voltassem contra a luta dos ambientalistas pela preservação de nossas florestas. Nada como invocar um nacionalismo retrógrado e ufanista ("os norte-americanos vão sentir saudades do Vietnã") para levantar a opinião pública contra aqueles que se preocupam com a proteção do meio ambiente.

Aquele episódio não pode ser esquecido e dele devemos tirar algumas lições. Não podemos cair em jogadas rasteiras. As indústrias dos EUA continuam sim degradando o meio ambiente, destruindo o que resta da natureza. São sim as grandes responsáveis pelo aquecimento global e pela destruição da camada de ozônio. Isto, porém, não significa que o povo norte-americano seja responsável por esse estado de coisas.

Assim, se estamos lutando por um planeta ecologicamente equilibrado, devemos nos unir à luta dos companheiros ambientalistas de todos os países. Ainda que boateiros norte-americanos venham um dia a sair por aí dizendo que nos mapas brasileiros o Parque de Yellowstone, nos EUA figure como latifúndio improdutivo a ser invadido pelo "Exército Revolucionário Haeckel-Sandinista" ou qualquer coisa nesse sentido. De qualquer forma, é um alívio saber que o embaixador Anthony Harrington tenha qualificado tais rumores de "mito grotesco" os rumores de que os EUA estariam promovendo a internacionalização da Amazônia.

O movimento ambientalista não se harmonizará jamais com discursos xenófobos, pois todos sabemos que a degradação ecológica não conhece fronteiras. Vale observar que concomitantemente com o lançamento de tal boato, começaram a circular em Brasília panfletos acusando o WWF e o Greenpeace de serem agentes do imperialismo...

Não podemos abrir mão do direito de lutar pela preservação do meio ambiente, seja no Chile, nos EUA, no Zaire, na China ou no Brasil, sejamos nós chilenos, palestinos, australianos, belgas ou suazilandeses. Isso não significa que queiramos invadir outros países mas, apenas, que queremos salvar o planeta. Ou não queremos?


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