Três dias de janela

Marcos Ribeiro de Barros

Procurador do Estado de São Paulo. Sócio-Fundador e Diretor Nacional do IBAP. Cronista e poeta.

Justo naquele dia o dentista foi abrir aquela janela na minha boca. Eu teria então que encontrar uma fórmula para paquerar, de boca fechada, aquela morena que passava sempre às quatro e meia da tarde na frente da minha janela. Abri a folha do calendário em busca de inspiração. Aquele dia veio a calhar. "O amor é cego, surdo e mudo", me reconfortou a mensagem daquele dia. Abri um sorriso – que fechei rápido quando me lembrei de sua enorme falha -, vesti um par de meias novo, calcei o sapato tinindo de brilhando e, às quatro e vinte, estava debruçado na janela. Tinha dez minutos para decorar o alfabeto para mudos que um dia comprei no ônibus e pensei que nunca ia usar. Deu quatro e vinte e nove e eu achava que tinha conseguido. Meu coração, como um cuco saindo do relógio, anunciou quatro e meia com uma batida de surdão. Ela dobrou a esquina e vinha vindo.

Comecei a movimentar nervoso as mãos e os dedos, tentando dizer silencioso "você é uma gracinha". Acho que fiz os sinais errados, porque ela viu aquilo, ficou vermelha e, também sem dizer uma palavra, veio na minha direção, ficou na ponta dos pés e me deu um bruta tapa na cara.

Dia seguinte, abri o calendário e ele dizia: "Tapa de amor não dói". Concordei, e resolvi tentar de novo. Dessa vez tinha tido tempo de estudar bastante e me sentia apto a gesticular uma frase maior: "desculpe, mas só queria dizer que você é uma gracinha e te convidar para tomar um sorvete de menta com pistache coberto com chantily ou se você preferir com calda de chocolate quente seguido de um cafezinho com canela em pó e depois quem sabe um cinema chupando bala chita ou comendo pipoca". No meio da frase fiz uma careta e comecei a gritar. A cãibra que me deu nos dedos foi brava e, entre um "ai" e outro, vi-a atravessar a rua me olhando com ar de desprezo e ir embora.

Não esperei o dia seguinte. Abri o calendário imediatamente, virei a folha e um sopro de ânimo agitou meus cabelos: "Quem ama o feio bonito lhe parece". Rasguei o alfabeto para mudos e, no dia seguinte, às quatro e meia, lá estava eu debruçado na janela, chinelo de dedos nos pés, bermuda rasgada, camisa amassada, cabelo despenteado e aquela enorme janela estampando meu sorriso. Ela passou e perguntei-lhe as horas. Ela sorriu e, instantaneamente, seu sorriso arrepiou meus cabelos, parou meu coração e meus olhos não acreditaram: só tinha dois dentes e um estava completamente cariado. Ela respondeu quatro e meia com um sotaque italiano e logo se justificou: "- Sou de Veneza e vim da Itália com minha família, fugindo da Máfia". Falei obrigado rápido e entrei correndo, deixando a janela escancarada. E a janela ficou aberta assim a noite inteira, semanas e meses. Durante muito tempo, não tive coragem de chegar perto de uma veneziana.


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