|
Caro
Prof. Dr.Luiz Flávio Borges D'Urso,
(Advogado e candidato à presidência da OAB-SP).
Sempre mantive respeito e admiração às
propostas do exímio professor e colega de profissão.
Entretanto, deveras constrangedor ouvir de
uma autoridade como V.Ex.a., sobretudo em decorrência
de um currículo recheado de história em defesa
da advocacia, atitudes que considero por demais
preconceituosa, irreal e agressiva aos advogados públicos.
Em seu artigo publicado na Revista Consulex
(15/10/03) n° 162, inclusive com direito a capa,
V.Ex.a. ao traçar os rumos da advocacia diz na página
16, 4o. parágrafo, o seguinte: " Por
tudo isso é que temos de reagir. E tal deve
ocorrer no seio de nosso órgão de classe, na
nossa Ordem dos Advogados do Brasil (em nosso
caso, de São Paulo), pois lutar individualmente não
traz chance de sucesso, mas pela OAB, com sua força,
pujança, respeitabilidade, certamente os resultados
serão obtidos, desde que quem esteja à frente da
nossa Ordem tenha tais compromissos com a classe,
seja advogado militante, tenha independência,
desvinculado de qualquer órgão governamental e,
acima de tudo, como geralmente se diz, "
encoste umbigo no balcão", pois somente aí
saberá, porque sentiu na carne, do que estamos
falando". (g.n.).
Antes de tudo, quero registrar que após
ler o artigo na sexta-feira passada (31/10),
apesar da matéria não dizer nada, já fiquei
achando que V.Ex.a. seria candidato a OAB-SP. Hoje
ao consultar o site da OAB-SP (www.oabsp.org.br)
não tive qualquer dúvida quanto a candidatura de
V.Ex.a. à presidência da OAB-SP pela Chapa 12.
Pois bem. Retornando ao artigo, vejo que
V.Ex.a. pelo próprio calor da campanha quis
atingir alguém, quando disse que para ser
presidente da OAB tornar-se-ia necessário ser um
"advogado militante, independente e sem vínculo
com o serviço público", acima de tudo, um
advogado que "encoste umbigo no balcão".
Ora, mais uma vez confesso a V.Ex.a. que
jamais poderia esperar isso de colegas da mesma
profissão. Ademais, de profissionais - como muito
bem disse V.Ex.a. no diálogo com a sua filha - são
destinados a lutar contra a " discriminação,
o preconceito e a verdade absoluta".
Sou procurador do Estado de Sergipe,
portanto Advogado Público conforme texto
constitucional. Ademais, presidimos a Associação
dos Procuradores do Estado, entretanto aqui falo tão-só
como agente. Senti-me menosprezado em todos os
sentidos. Defendo diuturnamente o Estado de
Sergipe em juízo, especialmente nas defesas
tributárias. Participo das audiências de instrução
e julgamento, acompanho os pregões, faço
sustentação oral no Tribunal de Justiça, viajo
para o interior para despachar com juízes e já
fui inclusive aos tribunais superiores para
acompanhar alguns processos, além das
consultorias à Secretaria da Fazenda. Alia-se a
tudo isso, o constante processo de atualização
para bem defender o erário estadual.
Isso não é militância? Não é
"encostar o umbigo no balcão"? Não é
saber das dificuldades do judiciário e do
advogado?
Ser um defensor do Estado é antes de tudo
ter uma convicção própria da importância do
Estado para o bem comum. Sendo um vocacionado para
esta missão: defender o Estado e não o
governante. Aqui em Sergipe e em diversos lugares
do Brasil, os procuradores de Estado ingressam
como mandado de segurança contra secretários de
Estado, Governador, Deputados e Desembargadores;
aderem às ações populares ou ações civis públicas,
sem com isso gera qualquer crise de identidade.
Isso não é independência?
A nossa autonomia funcional, mesmo não
sendo expressa na CF, decorre da própria
constituição, porque seria impossível defender
o erário sem ter autonomia técnica. A mesma
situação ocorre com a Advocacia da União e com
os Defensores Públicos. Por fim, V.Ex.a. poderia
lembrar e como pretendente a presidência não
pode ignorar, que o Art.18 do EOAB, garante
explicitamente que a relação de emprego ou
qualquer forma de subordinação não retira a
isenção técnica e nem a independência ético-profissional
do advogado, seja ele público ou privado.
Por fim, gostaria dizer que ao se propagar
esta idéia de V.Ex.a. certamente estaríamos
dentro da nossa OAB, criando os "guetos"
de advogado público e advogado privado. Aquele
pode ser tudo, menos presidente. Haveria uma
hierarquia entre advogados. Estranho, não! Somos
inscritos na OAB e devemos merecer o mesmo
tratamento que os demais colegas.
Imagino apenas o que seria a OAB-SP ser
presidida na época da atividade, tendo em vista
que hoje se encontra aposentada, pela procuradora
Maria Sylvia Zanella Di Pietro; ou a OAB-RJ por
Diogo Figueiredo Moreira Neto; ou a OAB-MG por
Carmem Lúcia Antunes Rocha. Não teriam independência?
Lembro-me da OAB-PB que já foi presidida e em um
período de grande atuação pelo procurador
Arlindo Delgado e agora na OAB-AL vem o nome do
procurador aposentado Marco Melo. Ora, são tantos
exemplos e em vários lugares, que sinceramente
espero que o pensamento de V.Ex.a. seja isolado e
em extinção.
A OAB tem que avançar e muito quando se
tratar de advocacia pública.
Deixar de lado certas práticas
estreiras e abraçar as reivindicações dos
advogados públicos, pois o que pretendemos com a
melhoria das instituições técnicas, a exemplo
de AGU, PGE/DF, PGM e Defensorias, refletirá o
bastante na qualidade do serviço público e
jurisdicional.
Obviamente, que continuarei sendo um
admirador e leitor do Prof. Luiz Flávio Borges
D'Urso, quanto se tratar de assunto relacionado ao
direito penal.
Carlos Antonio Araújo Monteiro
Procurador do Estado de Sergipe
OAB-SE 2616
|